As cinco competências da redação do Enem, explicadas
A nota da redação do Enem não é uma impressão geral do corretor: são cinco notas separadas, de 0 a 200 pontos cada, somadas até 1.000. Saber o que cada competência mede é o que mostra onde o seu rascunho está perdendo ponto.
Como a nota de 0 a 1.000 é montada
A Cartilha do Participante do Inep para a redação do Enem 2026 descreve o processo inteiro (https://download.inep.gov.br/publicacoes/institucionais/avaliacoes_e_exames_da_educacao_basica/cartilha_enem_2026.pdf). Cada avaliador dá de 0 a 200 pontos em cada uma das cinco competências, e a soma delas é o total daquele avaliador, no máximo 1.000 pontos.
Quem corrige são pelo menos dois profissionais formados em Letras ou em Linguística, cada um sem ver a nota do outro. A sua nota final é a média dos dois totais.
Quando as duas notas ficam distantes, a cartilha chama de discrepância: mais de 100 pontos de diferença no total, ou acima de 80 em uma mesma competência. Aí entra um terceiro avaliador e vale a média dos dois totais mais próximos; se a diferença persistir, decide uma banca de três.
Os seis níveis: por que não existe nota 150
Cada competência tem seis níveis, e só estes: 0, 40, 80, 120, 160 e 200 pontos. Não existe nota intermediária, então corrigir é escolher um degrau. O que cada faixa sinaliza:
Saber o seu degrau muda o que treinar: de 80 para 120 costuma ser problema de estrutura, de texto mal planejado; de 160 para 200 costuma ser acabamento.
- 200: critério cumprido de forma consistente, com falhas raras.
- 160: cumprido bem, com poucos escorregões.
- 120: cumprido de forma mediana, com falhas visíveis.
- 80: cumprido de forma insuficiente, com muitas falhas.
- 40: cumprido de forma precária.
- 0: critério não cumprido.
Competência I: escrever em português formal
É a competência da norma escrita formal: ortografia, acentuação, pontuação, concordância, regência, crase e escolha de palavras. Entra também o registro, então gíria e marca de oralidade derrubam a nota mesmo com a ideia boa.
A cartilha avalia a estrutura sintática junto com os desvios, e no nível de cima espera período com alguma complexidade, não uma fileira de frases curtas. O que checar no rascunho:
- Leia cada período em voz alta: se falta ar no meio, falta vírgula ou sobra oração.
- Marque todo verbo cujo sujeito ficou longe e confira a concordância.
- Cace marcas de oralidade: tipo assim, um monte de, né, a gente no lugar de nós.
Competência II: entender a proposta e desenvolver o tema
Avalia se você entendeu a frase temática, assumiu um ponto de vista e escreveu mesmo um texto dissertativo-argumentativo: tese no começo, argumentos que a sustentam e um fechamento. Texto que só expõe ideias, sem defender posição, perde aqui.
O outro elemento é o repertório sociocultural: um fato ou dado ligado ao tema que funcione como argumento. A cartilha chama de repertório de bolso a referência decorada que serve para qualquer tema e avisa que, no automático, ela pode ser avaliada como não produtiva.
Aqui mora um risco caro. Abordar o tema pela metade é o tangenciamento, e a cartilha trava a nota em 40 pontos de 200 nesta competência, segurando as Competências III e V no mesmo teto. Não abordar nem o assunto geral é fuga ao tema, e a redação é anulada.
Competência III: ter um projeto de texto
Olha como você seleciona, organiza e interpreta informações em defesa do seu ponto de vista. A cartilha chama isso de projeto de texto: o planejamento feito antes de escrever, que fica visível na ordem em que os argumentos aparecem.
O nível de cima fala em autoria: argumentos seus, e não uma reorganização dos textos motivadores. Com as linhas contadas, rende mais desenvolver dois argumentos até o fim do que citar cinco pela metade.
O que checar: cubra a introdução com a mão e leia só o desenvolvimento. Dá para dizer qual tese está sendo defendida? Se não dá, o projeto de texto não está aparecendo.
Competência IV: coesão que liga as ideias de verdade
Avalia os mecanismos que costuram o texto: conectivos, pronomes e expressões que retomam o que já foi dito. A III é a estrutura do raciocínio; a IV são as marcas que tornam essa estrutura visível.
A cartilha avisa contra o conectivo artificial ou em excesso: encher o texto de portanto e outrossim não sobe a nota se a relação lógica que eles anunciam não existir. Na lista do que evitar também estão o texto em um único parágrafo e a repetição de palavras sem recorrer a pronome ou sinônimo.
O que checar: circule o primeiro conectivo de cada parágrafo e pergunte se a relação que ele promete, oposição, causa ou conclusão, é mesmo a relação com o parágrafo anterior.
Competência V: proposta de intervenção completa
Aqui você propõe uma intervenção para o problema que discutiu, respeitando os direitos humanos. A cartilha separa propor de constatar: dizer que faltam investimentos em algo é constatação, não proposta.
A proposta completa tem ação, agente social que vai executá-la, meio de execução, efeito pretendido e um detalhamento. A ação é o núcleo, e tudo isso precisa conversar com o que você argumentou antes.
Proposta que desrespeita os direitos humanos recebe nota 0 nesta competência. A cartilha trata como sempre contrárias a esses direitos a defesa de tortura, de mutilação, de execução sumária e de justiça com as próprias mãos, além de incitar violência contra um grupo.
Formato e o que zera a redação
O texto é escrito na Folha de Redação em até 30 linhas, segundo o Inep na divulgação da cartilha de 2026 (https://www.gov.br/inep/pt-br/centrais-de-conteudo/noticias/enem/enem-2026-cartilha-da-redacao-esta-disponivel). Existe também um piso: com até 7 linhas manuscritas, ou até 10 no sistema Braille, a redação vira texto insuficiente e fica com zero. Entre os dois extremos o Inep não indica número ideal.
A cartilha lista o que zera a prova. Traduzindo: escrever sobre outro assunto, entregar algo que não é dissertativo-argumentativo, deixar a folha em branco, escrever pouco demais, encher a página de ofensa ou desenho, enfiar um trecho fora do tema de propósito, se identificar fora do campo reservado, escrever em outra língua ou deixar letra ilegível.
Duas regras pegam gente de surpresa. Trecho copiado da prova não conta como linha escrita por você, então copiar muito empurra o texto para a faixa de texto insuficiente. E bilhete para a banca ou recado de protesto solto entra como parte desconectada do tema. O título, esse é opcional: ocupa linha, mas não é avaliado.